A lembrança do assassinato do jornalista brasileiro Léo Veras, ocorrido em 12 de fevereiro de 2020 em Pedro Juan Caballero, volta a ecoar com força na fronteira entre Brasil e Paraguai. Nesta quinta-feira (12), sua viúva, Cintia Gonzales, divulgou uma nota pública em que cobra das autoridades paraguaias avanços concretos nas investigações — seis anos depois do crime que ainda não teve seus mandantes devidamente responsabilizados.
Léo, que era dono do portal Porã News, dedicado à cobertura de temas como crime organizado, narcotráfico e corrupção na região frontal, foi executado com múltiplos tiros dentro de sua própria casa enquanto jantava com a família. O assassinato aconteceu depois de meses de ameaças que ele havia denunciado formalmente às autoridades, sem que medidas eficazes de proteção fossem implementadas.
Na nota, Cintia enfatiza que não busca vingança nem privilégios, mas justiça e verdade para os filhos do casal e para toda a sociedade. Segundo ela, tratar o caso como um episódio isolado significaria ignorar o contexto de violência e impunidade que ronda profissionais da imprensa na fronteira — uma região marcada pela presença de facções criminosas e pela fragilidade institucional. Cada dia sem respostas, alerta, reforça a cultura da impunidade e envia à sociedade a mensagem de que quem ataca a imprensa pode fazê-lo com custo zero.
O risco diário de informar a verdade
O caso de Léo Veras é apenas a ponta de um problema mais amplo: trabalhar como jornalista na fronteira entre Brasil e Paraguai é viver sob constante ameaça. A região, dominada por rotas de tráfico e conflitos entre facções, figura entre os mais perigosos pontos do continente para a liberdade de imprensa.
Dados de organizações que monitoram a violência contra jornalistas mostram que, ao longo de décadas, cerca de 20 profissionais da imprensa foram mortos entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, muitos deles em conexão direta com o exercício da profissão. Nesse contexto, Léo Veras figura como um dos casos mais emblemáticos dos últimos anos. Informações de organismos internacionais indicam que jornalistas que investigam crime organizado na fronteira frequentemente enfrentam ameaças, perseguições e risco iminente de morte pela natureza do conteúdo que expõem.
O próprio Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) já alertou que a fronteira Brasil-Paraguai continua sendo “um dos lugares mais perigosos da América do Sul para profissionais da imprensa”, citando inclusive casos como o de um repórter paraguaio morto a tiros em Ponta Porã em 2015 por coberturas críticas — o que reforça o padrão de violência contra quem busca informar a população.
Memória, impunidade e luta por proteção
Para Cintia Gonzales, manter viva a memória de Léo Veras é parte essencial da luta contra a impunidade e pela proteção de colegas de profissão. “Vou buscar apoio, inclusive internacional, até que a verdade seja revelada e a justiça seja feita, pois o silêncio é o maior aliado dos culpados”, afirmou. Sua declaração reflete não só a dor da perda, mas também a determinação de transformar sofrimento em um chamado por mudanças estruturais que protejam quem escolhe enfrentar o medo para levar informação à sociedade.
O pedido por respostas e segurança não é dirigido apenas às autoridades paraguaias, mas a toda comunidade internacional de defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão. A vida de jornalistas na fronteira continua a ser marcada por risco extremo, e a luta por mecanismos eficazes de proteção é urgente e necessária para que a verdade possa ser contada sem que o preço seja a própria vida.

